ViPeR5000(Rui Melo) Site Admin

Sexo:  Registrado em: 11 Jun 2006 Mensagens: 2318 Local/Origem: Mealhada
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Colocada: Sex Abr 27, 2007 12:51 pm Assunto: CONDUÇÃO avançada |
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O ego dos condutores é muito superior à capacidade técnica de dominar o veÃculo. Equilibrar estas duas vertentes é o grande objectivo do curso de "condução avançada" que a Automotor foi tirar ao Algarve, na EMSDrive. Um centro de formação, cuja filosofia assenta na dúvida socrática do "só sei que nada sei", ponto de partida ideal para derrubar alguns mitos e começar a aprendizagem.
Constatação fria...
Só sei que nada sei...
Imagine duas colunas distintas. Uma delas representa a auto-estima dos condutores e é altÃssima. E uma outra, relativa à técnica dos mesmos, normalmente à altura da mediocridade. Por mais simples que possa parecer, a um primeiro olhar, o objectivo máximo do curso de "condução avançada" que a Automotor foi tirar ao Algarve, na EMSDrive - um centro de formação da BE Consultores -, é justamente o de servir de fiel da balança entre estas duas vertentes tão desequilibradas nos automobilistas.
Esqueça tudo o que sabe sobre cursos de condução defensiva. A óptica aqui é completamente diferente. "A primeira grande lição a retirar é a de que não sabemos nada." Para LuÃs Escudeiro, o grande mentor do projecto, esta é a pedra basilar da filosofia da EMSDrive: a eterna dúvida socrática do "só sei que nada sei".
Um ponto de partida ideal para uma aprendizagem correcta. Se, no final do curso, os alunos disserem algo semelhante à frase do célebre filósofo grego, já o responsável se dará por satisfeito, pois estará lançada a semente para poderem desenvolver uma "pesquisa pessoal, a posteriori, todos os dias, na estrada".
A primeira vez...
É uma história relativamente recente, a da EMSDrive. Tem pouco mais de um ano de actividade, e é fruto de uma mudança de vida radical do fundador. Depois de uma longa carreira (mais de uma década) na Prevenção Rodoviária Portuguesa, a ver o muito que podia ser feito na área do ensino e da formação em condução, e que ficava sempre no papel, LuÃs Escudeiro achou que era altura de caminhar pelo próprio pé. Começou por fazê-lo até Portimão, deixando Lisboa e criando a estrutura da EMSDrive.
Tudo foi mais fácil graças à vasta experiência que acumulou, em tantos anos, em cursos tão vastos - como próximos - como "Aperfeiçoamento para Condutores de VMER", "Formação Pedagógica de Formadores", "Selecção, Avaliação e Reabilitação de Condutores, "Técnicas de Condução Defensiva Avançada", "Curso de Aperfeiçoamento de Condutores", "Introdução à Segurança Rodoviária"ou "Comportamento Dinâmico dos VeÃculos", aos quais juntou o contacto prático como "condutor de veÃculos de emergência hospitalar", para enumerar apenas alguns pormenores de um currÃculo que o levou a correr o mundo.
O inÃcio da actividade da EMSDrive pautou-se por cursos de condução avançada para motoristas de veÃculos especiais, nomeadamente do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) e da PolÃcia Judiciária (PJ), dos bombeiros e da Cruz Vermelha (ver caixa).
O curso que a Automotor tirou foi o primeiro destinado aos condutores ditos "normais". A grande vantagem reside no facto de a metodologia ser a mesma que a utilizada nas aulas mais especÃficas, obrigando a uma investigação aturada. "É a primeira edição de uma formação mais simples, aplicada ao público em geral. Nós trabalhámos, essencialmente, até agora, com gente ligada à emergência, e pensámos transpor alguns desses ensinamentos, de modo a transmitir uma noção de segurança e a melhorar a prestação técnica dos condutores", explica LuÃs Escudeiro. No fundo, segundo acrescenta, trata-se de aplicar "conhecimentos de carácter cientÃfico à condução do dia-a-dia".
Um clássico. A reacção desta aluna é representativa da importância dos automatismos. Perante um obstáculo inesperado, tenta, "desesperadamente", virar o volante, de forma aleatória, olhando para o local para onde não quer levar o automóvel, quando devia depositar os ohos no ponto de fuga...
Derrubar mitos
Sentamo-nos na sala de formação, juntamente com os restantes alunos - a inscrição custou-lhes 90 e. E seguem-se valentes horas de teoria. A meio da sessão, assalta-nos o já referido conceito socrático. À nossa frente, LuÃs Escudeiro disserta sobre a matéria que tão bem domina, derrubando alguns arquétipos da condução que todos na sala (sem excepção) julgávamos adquiridos.
Durante as aulas teóricas, os alunos deitam por terra alguns mitos que aprenderam nas escolas de condução. LuÃs Escudeiro explica aos alunos, em pleno circuito, qual a melhor forma de fazer uma curva em segurança.
Exemplos? Faltaria espaço. Mas podemos adiantar-lhe, caro leitor, que começava logo pela forma de se sentar. Um dos erros mais comuns é o das pessoas se colocarem demasiado perto do volante, numa clara demonstração de falta de confiança, ou mesmo de visão, que torna impossÃvel virar com precisão e suavidade. E pode mesmo ser perigoso devido ao airbag.
A face do condutor deverá distar, pelo menos, 25 cm do centro do volante. Dirá o leitor que já sabia que esta era a "posição dos totós". Muito bem. Mas também quem conduz demasiado afastado da direcção comete semelhante erro, seja por excesso de confiança ou falta de empenho.
A postura adoptada por muitos condutores, com os braços esticados, lembra os pilotos de F1. Só que estes não necessitam de virar mais do que 1/4 do volante para virar totalmente a direcção, seja qual for o circuito. Acha que sucede o mesmo na via pública? Para a EMSDrive, é preferÃvel o que fazem os pilotos de ralis, sentados mais próximos do volante, permitindo-se, assim, efectuar várias voltas com rapidez e precisão - a palma da mão deve alcançar o topo do volante, sem esticar o braço.
E por falar em volante: como é que as mãos devem ser colocadas neste durante a condução? "Qual é a posição correcta?" pergunta o formador. "É tipo 10 para as duas", respondem quase em coro os alunos, reportando ao que aprenderam nas escolas de condução. "Errado"! LuÃs Escudeiro, servindo-se de um volante para provar a teoria, defende que, na maior parte dos paÃses do Norte da Europa ensinam a colocar as mãos na linha média do volante, ou ligeiramente abaixo, sendo que nos cursos de aperfeiçoamento ou de pilotagem, nem sequer se discute.
Como adianta, o próprio desenho do volante tem uma concepção que "obriga" à colocação da palma das mãos numa posição paralela, ligeiramente abaixo da linha média deste. Até porque os benefÃcios, em termos de condução, são enormes, ganhando-se mais "sensibilidade, amplitude de movimentos e controlo do automóvel". Além disso, os próprios polegares podem activar grande parte dos comandos que, hoje em dia, se encontram incorporados no volante. "Ou os construtores estão todos errados... ou, então, são as nossas escolas de condução", ironiza...
A formação abrange ainda aspectos relacionados com a mecânica, pneus, viragem, subviragem, aderência, ângulos de abordagem das curvas e travagem, arrasando, neste último capÃtulo, mais um mito. "Em caso de embate iminente, não se preocupe em fazer reduções com a caixa... preocupe-se em travar!", adianta LuÃs Escudeiro. Como diz, hoje, quase todos os automóveis têm ABS - e, em 2004, todos os veÃculos novos, vendidos na UE, vão ser obrigados a tê-lo -, e procurar a redução apenas faz com que soltem ainda mais a viatura, ao carregar na embraiagem.
Muitos batem com a embraiagem a fundo. "Fazer muitÃssimo bem a travagem, é isto que é a condução avançada", disse. Nada como recordar as palavras do famoso piloto Jackie Stewart, que, um certo dia, afirmou, humildemente, que "a última coisa que aprendeu a fazer bem foi a travar"... É esse o espÃrito!
Desenganem-se aqueles que pensam que a componente prática do curso era uma oportunidade para uma brincadeiras e uns "piões". "Trabalhamos para uma condução de não-risco, em que a derrapagem não deve acontecer. É mais sobre como ficar aquém do problema, sobre como não entrar em situação crÃtica... Muitos pensam que, se uma derrapagem correu bem numa pista, também correria na via pública. Não funciona assim. Eram necessários novos automecanismos. E, em situação de risco, recorremos sempre aos anteriores. Não é numa tarde, ou em três dias, que um condutor ganha uma nova postura ou técnica", diz.
A auto-estima dos condutores é colocada em cheque, sendo fácil de perceber que, por vezes, o veÃculo foge mesmo... A escolha da melhor trajectória para abordar uma curva é um exercÃcio repetido vezes sem conta pelos alunos.
Toda a segunda parte do curso consiste num bem arquitectado plano para baixar um pouco a elevada auto-estima. É muito bem sucedido no propósito. A ideia é aplicar alguns dos conceitos aprendidos um dia antes, nas aulas teóricas. E se antes ficáramos com a ligeira sensação de que não sabÃamos assim tanto do "bicho" automóvel, agora verificámos que ainda tÃnhamos menos a noção de como dominá-lo em determinadas situações, arrasando-nos anos e anos de meras convicções automobilÃsticas.
Depois de umas voltas de reconhecimento à pista, foi a vez de aprendermos técnicas de viragem, trajectórias correctas para a abordagem às curvas, privilegiando sempre a gestão do olhar - que deverá apontar para o ponto de "fuga", e atentando ao lema de que o melhor será procurar "entrar lento e sair rápido".
No final do segundo dia, a avaliação. E as advertências. LuÃs Escudeiro está ciente de que tudo o que os alunos aprenderam será facilmente esquecido se não for contÃnua e diariamente exercitado na estrada. Até ao dia em que o automatismo novo substitua o anterior, e em que perante uma situação de perigo real aja correctamente, e não de forma "viciada".
Por enquanto, os cursos da EMSDrive têm sido divididos entre o quartel dos Bombeiros Voluntários da Lagoa (aulas teóricas) e o Kartódromo da Lagoa - que se encontra numa situação de impasse, sem ser explorado. Mas, apesar de este circuito reunir as "caracterÃsticas necessárias", as aspirações de LuÃs Escudeiro vão mais além. E passam, a médio prazo, pela construção de uma pista própria, aguardando, para tal, pelo apoio de alguma câmara municipal mais atenta à importância destes cursos no combate à sinistralidade rodoviária.
Cursos Especiais
Um toque personalizado
Talvez se o INEM tivesse consciência de alguns erros comuns praticados pelos seus homens investisse mais na área. Alguns são graves. "Não faz sentido que, para salvar uma vida de uns, se coloque a de outros em risco. Eles também têm de fazer uma condução segura e eficaz. Nunca devem passar um sinal vermelho sem antes verem se podem prosseguir a marcha", afirma.
Depois, todos os veÃculos prioritários, sem formação complementar, incorrem num equÃvoco detectado por LuÃs Escudeiro. "Quando assinalam a marcha de urgência com uma sirene, nunca devem circular pela berma, pois, quando os condutores a ouvem, têm tendência a fugir para as bermas. Está estudado!" São pormenores que podem fazer a diferença, diz quem passou mais de 700 horas a conduzir veÃculos de emergência para apurar a experiência. "Tinha de saber do que falo." E para que os condutores das VMER também saibam do que falam quando transportam um acidentado, parte da formação passa por deitá-los, lá atrás, na maca, para verem os prejuÃzos de uma má condução num doente.
E se outros agentes, como os nadadores-salvadores, já procuraram a EMSDrive para criar um programa que se adapte aos seus esquemas de salvamento nas praias, outras instituições, como a Brigada de Trânsito da GNR (BT), preferem continuar a dar formação aos agentes (como a Automotor teve oportunidade de assistir, há pouco mais de um ano) através de cursos ministrados por técnicos de algumas marcas. Os quais não vão além de "um dia de recreio" (a expressão foi proferida por um oficial presente então no local), onde os "alunos" se recriam em derrapagens e piões, que nada têm a ver com as acções geralmente praticadas em auto-estrada, a altas velocidades, num claro exemplo de desadequação de matérias.
O futuro, porém, correrá a favor de organismos como a EMSDrive, que, por opção, não corre atrás de "clientes". "Preferimos ser contactados e, então, desenvolver o curso adequado". Segundo um documento em elaboração na União Europeia, prevê-se que, em meados de 2004, todos os paÃses-membros irão obrigar os encartados, profissionais e particulares, a frequentar cursos complementares de condução.
POR Jorge Flores- ILUSTRAÇÃO André Kano
Fonte Automotor
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